quinta-feira, 13 de março de 2025

bolinho de chocolate com coca diet

Dia desses fui convidada (ou seria intimada?) pra uma roda de conversa só de mulheres, em função do 08 de março. Bom, após todas as presentes lerem mensagens de motivação e expressarem o quanto são gratas por tudo o que as mulheres conquistaram até aqui, não pude evitar a minha vez de falar.


Era nítido o meu desejo de permanecer em silêncio, comendo as guloseimas do evento e esperando a hora de ir embora, porém por mais de uma vez o objeto que indicava com quem estava a palavra passou por mim e eu me senti, se não obrigada, fortemente convencida a falar.


Todas ouviam atentas, aguardando eu falar o quanto me sinto agradecida por poder vender a minha força de trabalho em um ambiente que me oprime diariamente, ou o quanto eu me sinto feliz de poder ser uma mulher negra, nordestina, periférica, trabalhando em uma multinacional europeia para enriquecer um bando de branco preguiçoso no norte global.

As vezes eu acho que é um fetiche para algumas figuras:
ver alguém conseguir sair um tantinho só da condição de miséria,
apenas pra depois achar que essa pessoa precisa passar a vida toda
agradecida e feliz com a conquista que na real não a tira da condição de pobreza,
só a faz na verdade enxergar que existe um mundo
além da miséria em que ela vivia antes.
Mas enfim, isso é papo pra outro dia, outro desabafo...

Inicialmente eu lembrei é muito interessante ouvir sobre as conquistas das mulheres e delas próprias; que bom que elas reconhecem o quanto muitas tiveram que fazer para que elas estivessem ali hoje, comendo bolo com chocolate e falando de positividade e irmandade!


Charge do Nando Motta sobre a indicação do ministro ‘terrivelmente evangélico’ para o STF em dezembro de 2021.

Seguindo com minha fala e estragando as expectativas, lembrei o quanto é importante ter em mente que apesar das conquistas já alcançadas, apesar dos direitos já adquiridos, com tanto suor e sangue, ainda tem muito a ser feito. Se analisarmos bem, a conquista de direitos como votar, trabalhar ou de não ser espancada e humilhada até a morte, não deveria ser motivo de celebração. Poder trabalhar, decidir se quer ter filhos ou não, contribuir para a organização política da sociedade e ter leis que punam quem invade a sua integridade física e psicológica é o mínimo de condição de vida para qualquer ser humano. Aliás, ser reconhecida como SER HUMANO é o mínimo e não deve ser motivo de comemoração.