terça-feira, 13 de maio de 2025

o curioso caso de Edward Albert Lancelot e a burocracia brasileira

Não faz muito tempo que conheci a história do ilustre Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield. Juiz federal aposentado, formado em direito pela USP e descendente de britânicos. Na verdade, José Eduardo Franco dos Reis, além de falsificar seu nome, falsificou também uma história. História essa, que me intrigou e me entreteu por alguns dias. Além de falsificar o nome que manteve por décadas, o ilustre Edward, que afirmava ser descendentes de ingleses, mantinha hábitos de seus familiares, como tomar chá a tarde, por exemplo.

Para além das manchetes que vão explorar ou tentar explicar porquê o brasileiro fraudou o sistema e emitiu não apenas um RG com nome falso, mas carteira de habilitação, passaporte e até reservista com o nome de Edward, fiquei também curiosa em entender como um jovem de vinte e poucos anos conseguiu fraudar seus documentos e viver normalmente por 45 anos com o nome fraudado, se formando pela USP, atuando e se aposentando como Juiz, inclusive com relatos de que em alguns processos ele citava como era fácil emitir documentos falsos no Brasil. A propósito, o nome escolhido por ele para viver era um nome no mínimo curioso. Além de longo, extremamente incomum para um brasileiro é quase como uma brincadeira com o sistema, quase como se ele quizesse ou soubesse que seria pego. Foi pego em 2025, pelo poupatempo em São Paulo, ao tentar retirar uma segunda via do RG.

Estátua A justiça de Alfreto Ceschitti sendo lavada após atos golpistas de 08.01.2023 

Essa história pode ser explorada por várias óticas, incluindo a ótica da psicologia (o que daria uma história bem interessante), porém, eu quero me ater aqui a ótica das instituições brasileiras e como a burocracia exagerada propicia a existência de outros casos como esse. Não tenho aqui a pretenção de falar sobre conceitos, pois não tenho conhecimento para tal, a ideia é colocar no papel uma reflexão sincera sobre o que eu acredito que precisa ser feito para construirmos um sistema mais eficiente. Também não quero fazer juízo de valor sobre as ações do Sr José Eduardo, pouco me importa o nome que ele usou por todos esses anos e realmente não saberia dizer quais os impactos reais desse caso isoladamente para a sociedade.

segunda-feira, 12 de maio de 2025



sábado, 10 de maio de 2025

o conto daquele dia chuvoso

Dia desses percebi que poderia contar nos dedos das mãos, as amizades verdadeiras que ainda mantenho.
Nessa matemática entrou aquelas amizades que de um jeito ou de outro, fizeram parte de momentos importantes de minha vida. Aquelas pessoas que você poderia ligar e conversar, por horas e horas e horas.
Depois contei as que estão comigo até hoje e uma mão foi o suficiente.
Fiquei refletindo sobre as pessoas que estariam nessa contagem no passado, mas que hoje já não estão mais. Sobre as pessoas que escolhi não ter mais contato e sobre as pessoas que escolheram não ter mais contato comigo. Lembrei das pessoas que só seguiram outro caminho e que sabemos que a amizade que mantivemos tem seu lugar especial, no passado.
Inevitavelmente me veio à cabeça wish you were here do Pink Floyd.




o conto daquele dia chuvoso

Era um dia de chuva, e após tantos dias de dor e desconsolo, ela estava no ponto de ônibus, esperando sua condução e pensando que a chuva que caía lavava também a sua alma. A despeito da pouca idade, muito já tinha experimentado e de pouco havia gostado, por isso se questionava se realmente vale a pena provar de tanto.
Ao fundo, o bar da esquina emitia uma melodia de metamorfose ambulante misturada com o barulho de uma sinuca sem conversa, apenas o som do baiano Raul e do jogo concentrado.
A mistura do som da chuva, com o bar ao lado lhe embalava os pensamentos e lhe levava a locais distantes, locais onde nem lembrava mais que esteve.
Sabe quando a chuva, ao cair das bordas do telhado reflete na luz do poste de iluminação pública e brilha? Brilha. No brilho da chuva que caía na periferia de uma cidade pequena ela pensava sobre como algumas pessoas se vão, inevitavelmente.
Envolta nessa reflexão, um lampejo de esperança se acendeu momentaneamente e a fez pensar nesse sentimento que ficou escondido por tanto tempo, guardado por não ser possível, devido às circunstâncias da época.
Mas as circunstâncias agora eram outras, a chuva brilhava com a luz do poste e Raul tocava nas rádios. Tudo era possível.
Se encheu de esperança e recordações, pegou seu Sony Ericson Walkman Flip roxo e discou 3622... Por que colocaram um "3" antes de todos os telefones mesmo? Acho que é por que tem muita gente usando telefone... será que agora vamos viver a tal globalização que estudei na escola?... Pera, não importa. O que importa agora é esperar atender e... Ops.
- Oi?
- Oi!

quinta-feira, 13 de março de 2025

bolinho de chocolate com coca diet

Dia desses fui convidada (ou seria intimada?) pra uma roda de conversa só de mulheres, em função do 08 de março. Bom, após todas as presentes lerem mensagens de motivação e expressarem o quanto são gratas por tudo o que as mulheres conquistaram até aqui, não pude evitar a minha vez de falar.


Era nítido o meu desejo de permanecer em silêncio, comendo as guloseimas do evento e esperando a hora de ir embora, porém por mais de uma vez o objeto que indicava com quem estava a palavra passou por mim e eu me senti, se não obrigada, fortemente convencida a falar.


Todas ouviam atentas, aguardando eu falar o quanto me sinto agradecida por poder vender a minha força de trabalho em um ambiente que me oprime diariamente, ou o quanto eu me sinto feliz de poder ser uma mulher negra, nordestina, periférica, trabalhando em uma multinacional europeia para enriquecer um bando de branco preguiçoso no norte global.

As vezes eu acho que é um fetiche para algumas figuras:
ver alguém conseguir sair um tantinho só da condição de miséria,
apenas pra depois achar que essa pessoa precisa passar a vida toda
agradecida e feliz com a conquista que na real não a tira da condição de pobreza,
só a faz na verdade enxergar que existe um mundo
além da miséria em que ela vivia antes.
Mas enfim, isso é papo pra outro dia, outro desabafo...

Inicialmente eu lembrei é muito interessante ouvir sobre as conquistas das mulheres e delas próprias; que bom que elas reconhecem o quanto muitas tiveram que fazer para que elas estivessem ali hoje, comendo bolo com chocolate e falando de positividade e irmandade!


Charge do Nando Motta sobre a indicação do ministro ‘terrivelmente evangélico’ para o STF em dezembro de 2021.

Seguindo com minha fala e estragando as expectativas, lembrei o quanto é importante ter em mente que apesar das conquistas já alcançadas, apesar dos direitos já adquiridos, com tanto suor e sangue, ainda tem muito a ser feito. Se analisarmos bem, a conquista de direitos como votar, trabalhar ou de não ser espancada e humilhada até a morte, não deveria ser motivo de celebração. Poder trabalhar, decidir se quer ter filhos ou não, contribuir para a organização política da sociedade e ter leis que punam quem invade a sua integridade física e psicológica é o mínimo de condição de vida para qualquer ser humano. Aliás, ser reconhecida como SER HUMANO é o mínimo e não deve ser motivo de comemoração.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

sabe-se lá

Essa tirinha da Laerte sempre me deixa tal qual o último quadrinho.
 

sábado, 18 de janeiro de 2025

domingo, 5 de janeiro de 2025

uma semana cheia

Domingo, poderia estar aproveitando bons momentos, lendo um bom livro, aproveitando uma conversa agradável. Mas no meio da tarde ensolarada ela só pensa em uma coisa. 

Engraçado, com o passar dos anos essa sensação foi lhe consumindo quase que sem ser percebida. Primeiro ela o fazia por obrigação social, meio que é algo que faz parte da existência na sociedade. Com o passar de alguns poucos anos passou a ser uma necessidade não apenas social, mas existencial. Não tinha mais o seio familiar para retornar sempre que necessário, portanto, passou a fazer por pura e simples sobrevivência. Era necessário, era fundamental e obrigatório.

Segunda-feria, poderia estar decretando feriado, como Paulo Coelho, andando, saindo. Mas nem o cantar de Raul Seixas a desconectaria de sua sincronia com a máquina. Ela e a máquina era apenas uma, o que ela fazia, através da máquina a mantia seguindo. Estava viva superficialmente, artificialmente.

Terça. A obrigação, com o passar dos anos passou a ser parte do que ela é. Não mais fazia por necessidade, apesar de sim, a necessidade continuar sempre ali, presente. Mas com o tempo, não era mais a necessidade que a movia, era a sensação de que aquilo a representava. Como se fazer era o que a representava como pessoa, como indivíduo na sociedade, como mulher.


Quarta-feira, queria estar como Luedji Luna, andando a cidade inteira, saindo pra te procurar, tomando um banho de folhas, alimentando alguma esperança... Mas está fazendo novamente, sendo criticada, ouvindo as criticas, ponderando, ou não. Refazendo.

sábado, 4 de janeiro de 2025