Dia desses fui convidada (ou seria intimada?) pra uma roda de conversa só de mulheres, em função do 08 de março. Bom, após todas as presentes lerem mensagens de motivação e expressarem o quanto são gratas por tudo o que as mulheres conquistaram até aqui, não pude evitar a minha vez de falar.
Era nítido o meu desejo de permanecer em silêncio, comendo as guloseimas do evento e esperando a hora de ir embora, porém por mais de uma vez o objeto que indicava com quem estava a palavra passou por mim e eu me senti, se não obrigada, fortemente convencida a falar.
Todas ouviam atentas, aguardando eu falar o quanto me sinto agradecida por poder vender a minha força de trabalho em um ambiente que me oprime diariamente, ou o quanto eu me sinto feliz de poder ser uma mulher negra, nordestina, periférica, trabalhando em uma multinacional europeia para enriquecer um bando de branco preguiçoso no norte global.
As vezes eu acho que é um fetiche para algumas figuras:
ver alguém conseguir sair um tantinho só da condição de miséria,
apenas pra depois achar que essa pessoa precisa passar a vida toda
agradecida e feliz com a conquista que na real não a tira da condição de pobreza,
só a faz na verdade enxergar que existe um mundo
além da miséria em que ela vivia antes.
Mas enfim, isso é papo pra outro dia, outro desabafo...
Inicialmente eu lembrei é muito interessante ouvir sobre as conquistas das mulheres e delas próprias; que bom que elas reconhecem o quanto muitas tiveram que fazer para que elas estivessem ali hoje, comendo bolo com chocolate e falando de positividade e irmandade!
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| Charge do Nando Motta sobre a indicação do ministro ‘terrivelmente evangélico’ para o STF em dezembro de 2021. |
Seguindo com minha fala e estragando as expectativas, lembrei o quanto é importante ter em mente que apesar das conquistas já alcançadas, apesar dos direitos já adquiridos, com tanto suor e sangue, ainda tem muito a ser feito. Se analisarmos bem, a conquista de direitos como votar, trabalhar ou de não ser espancada e humilhada até a morte, não deveria ser motivo de celebração. Poder trabalhar, decidir se quer ter filhos ou não, contribuir para a organização política da sociedade e ter leis que punam quem invade a sua integridade física e psicológica é o mínimo de condição de vida para qualquer ser humano. Aliás, ser reconhecida como SER HUMANO é o mínimo e não deve ser motivo de comemoração.
O que estamos comemorando, minha gente? Nós mulheres, ainda temos uma representação muito pequena em todas as áreas da sociedade!
A primeira e única presidenta do Brasil sofreu um golpe. Não temos maioria no congresso, não temos maioria no judiciário. Não somos maioria nem no mercado de trabalho. No curso de direito, nós ainda estudamos leis que impedem a mulher de exercer determinadas funções, com a justificativa de que toda mulher consegue carregar menos peso que todo homem. A gente ainda tá na internet discutindo com gente que acha que mulher deve ficar em casa, sendo bela, recatada. Nós vendemos pras meninas a ideia de que elas tem que se preocupar sempre com a beleza, pra depois exigirmos que elas se amem do jeito que são.
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| Pesquisa feita no chatGPT sobre a população do Brasil, por gênero. |
Ainda tem muito a ser feito e o dia 08 de março não é dia de celebração. Não é dia de comer bolinho de chocolate, participando de uma cena que poderia ser facilmente um episódio de ruptura. Tá tudo bem pra você aí, sentada em sua cadeira confortável, embaixo do ar-condicionado, comendo bolo e coca diet? Tá tudo bem pra você mulher, que nasceu numa vida de privilégios e que hoje quando chega do trabalho pega seu filho com a babá/empregada?
Bom, deixa eu falar uma coisa, fora dessas bolhas que vocês se encontram, ainda tem muita mulher se fudendo todos os dias pra colocar comida no prato dos filhos cujo os pais muitas vezes foram comprar cigarro e nunca voltaram. Essas mulheres não podem se dar ao luxo de não ter uma rotina dupla. Ou trabalham dentro e fora de suas casas, ou morrem de fome.
Recordo que quando falei da Dilma, fui interrompida pela fala de que “independente da posição partidária né? Não vamos falar sobre política hoje” – Fui pronta em minha resposta: Como assim? Vamos falar sobre política sim, não tem momento mais adequado pra isso, falar dos direitos das mulheres é falar sobre política, inevitavelmente, invariavelmente.
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| Presidenta Dilma sendo interrogada em um tribunal da ditadura militar, foto publicada pela revista Época em 03/12/2011. |
Quando vamos construir políticas sociais que permitam que o homem e a mulher possam trabalhar equiparadamente? Quando vamos ter creches de qualidade, para que as mães não deixem de trabalhar por que não tem com quem deixar os filhos? Quando é que vamos ter uma sociedade com políticas públicas que direcione as pessoas para a ideia de que a responsabilidade dos filhos não é só da mãe? Quando a mulher vai poder decidir sobre o seu próprio corpo?
Somos maioria na sociedade brasileira e para haver o mínimo de justiça de gênero, deveríamos ser também maioria nas posições de decisão da sociedade. E digo mais, pra se fazer justiça de verdade (se é que é possível) deveríamos ser maioria por muitos longos anos. Independente da quantidade de mulheres e homens, nós deveríamos tomar conta das decisões por um bom tempo. Afinal, não é de agora que as decisões sobre nossos corpos, sobre nossas vidas são tomadas por homens.
08 de março é um dia político. Ponto. Não é um dia de celebração, não tem nada aqui pra comemorar, no oitavo dia de março a gente lembra os direitos conquistados e olha pra o futuro. Dia de pensar no que podemos conquistar e como podemos conquistar. É sobre isso.
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| Trabalhadoras das fábricas têxteis no primeiro dia da Revolução de Fevereiro em Petrogrado (Rússia), 8 de março de 1917. Foto: Domínio Público |



